segunda-feira, março 19, 2007

Se pudesse seduzir a morte, lamber-lhe as axilas, os pêlos pretos, babar no seu umbigo, enturpir-lhe as narinas de hálitos melosos, e dizer-lhe: sou eu, gança, sou eu, mariposa, sou Karl, esse que há de te chupar eternamente a borboleta se tu lhe permitires longa vida na olorosa quirica do planeta.




Ciao, irmanita. *

quinta-feira, março 08, 2007

(Do livro "Os Cadernos de Cozinha de Leonardo da Vinci", que foi também cozinheiro, no final do século XV

Nenhum convidado deverá sentar em cima da mesa, nem de costas nem sobre a roupa de outro convidado.
Não deverá botar sua perna em cima da mesa.
Não porá sua cabeça no prato para comer.
Não pegará a comida de seu vizinho sem antes pedir licença.
Não porá pedaços mastigados de sua própria comida no prato de seu vizinho sem primeiro perguntar a ele.
Não limpará sua faca na roupa do vizinho.
Não porá comida da mesa em seu bolso nem em sua bota para comer depois.
Não beliscará nem baterá em seu vizinho.
Não fará cara feia nem girará os olhos.
Não conspirará à mesa (a não ser que o faça com Meu Senhor.)
Não fará aos pajens do Meu Senhor sugestões luxuriosas nem brincará com seus corpos.
Não soltará seus pássaros na mesa.
Assim como tampouco escaravelhos ou víboras.
Não baterá nos serviçais (só pode fazê-lo em caso de sua própria defesa).
Deverá abandonar a mesa se está para vomitar.

domingo, março 04, 2007

ele se virou e me disse _ a lua está tão linda,deve ser pelo eclipse tragou o cigarro soltou a fumaça tirou o cabelo dos olhos cruzou as pernas levantou a barra da calça desculpou-se por ser tudo tão óbvio eu lhe disse que a culpa não era nossa ele discordou se levantou aumentou o som resmungou que a próxima música é linda e eu tirei o meu vestido me enconstei no vaso de flores brancas artificiais escutei a porta se abrir e algazarra de umas cinco pessoas suspirei de cansaço fechei os olhos eles atiraram uma almofada no pássaro ele caiu assustado,quebraram uma de suas asas ele estava desesperado gritando com voz de pássaro eu não me mexi eles não se incomodaram tentaram me acordar eu me mantive calada eles desistiram acenderam uma droga elogiaram a droga eu suspirei de cansaço eu gostaria de dormir alguém quebrou uma garrafa alguém rasgou uma página senti o coração torcer,era uma página de biblia,sorri aliviada. um sorriso calado,escondido. acordei o sol despertava aguardei enquanto ele despreguiçava,ele sorriu um sorriso raiando em meus olhos eu disse tudo bem está tudo bem,ela me contou que estão todos carecas eu contei que estaria também careca ela não acreditou me jurou um tanto de amor eu fiquei sorridente meu coração sempre pulsa eu sorri para o trocador ele devolveu o meu troco ele sorriu um sorriso distante,repetitivo. eu não liguei,procurei um banco vazio tinha uma dona gorda na janela de olhos tristes e batom vermelho de sandálias pretas e pés cansados de bolsa velha de roupa usada,suada,surrada. encontrei uma foto antiga num porta-retrato sem graça de uma época passada. devolvi em seu lugar na cômoda descascada, andei uns passos peguei um livro 'lugar comum' gostei do título me joguei na cama de lençois floridos esquecidos mofados,não me importou. abri uma página qualquer e li em voz alta tirando os sapatos :
Tanto a dizer
ou nada
melhor calar
tanto a ouvir.

Por mais que veja
ao deitar
da luz
não sinto mais.

Quantas línguas
percorridas
por nada...

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

'para fazer um poema dadaísta:
Pegue um jornal.
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.'

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Certa loucura anda muitas vezes de braço dado com a poesia.
É tão difícil as pessoas razoáveis se tornarem poetas quanto os poetas se tornarem razoáveis !


15:29

quinta-feira, dezembro 07, 2006

"(As pessoas).Quanto menos as vejo,mais gosto delas."
"Dou duas voltas no quarteirão,encontro 200 pessoas e não vejo nenhuma criatura humana. Olho na vitrine das lojas e não há nada que me interesse.No entanto,tudo tem preço. Uma guitarra,ora,porra,pra que me serve uma coisa dessas?Só se for pra tacar foto.Toca-discos,tevê,rádio. Tralha inútil.Bugiganga imprestável.Um troço pra embrutecer o cérebro. Como soco com luva vermelha de 200 gramas. Popt. Te derruba no chão."
"Nada estava em sintonia,nunca.As pessoas vão se agarrando às cegas a tudo que existe: comunismo,comida natural,zen,surf,balé,hipnotismo,encontros grupais, orgias,ciclismo,ervas, catolicismo,halterofilismo,viagens,retiros,vegetarianismo,
Índia, pintura,literatura,escultura,música,carros,mochila,ioga,cópula,jogo,bebida,
andar por aí,iorgute congelado,Beethoven,Bach,Buda,suicídio,roupas feitas à mão,vôos à jato,Nova Iorque,
e aí tudo se evapora,se rompe em pedaços.
As pessoas têm que achar o que fazer enquanto esperam a morte.
Acho legal ter uma escolha."

quarta-feira, novembro 29, 2006

A convivência harmoniosa te leva para o céu-ou seja-para lugar nenhum. !!!!!!!!!!

domingo, novembro 26, 2006

E minhas próprias coisas eram tão más e tristes, como o dia em que nasci. A única diferença era que agora eu podia beber de vez em quando, apesar de nunca ser o suficiente. A bebida era a única coisa que não deixava o homem ficar se sentindo atordoado e inútil o tempo todo. Tudo mais te pinicando, te ferindo, despedaçando. E nada era interessante, nada. As pessoas eram limitadas e cuidadosas, todas iguais. E eu teria que viver com esses putos pelo resto de minha vida, pensava. Deus, eles todos tinham cus, e órgãos sexuais e suas bocas e seus sovacos. Eles cagavam e tagarelavam e eram tão inertes quanto bosta de cavalo. As garotas pareciam boas à distancia, o sol provocando transparencias em seus vestidos, refletido em seus cabelos. Mas chegue perto e escute o que elas tem na cabeça sendo vomitado pelas suas bocas. Você ficava com vontade de cavar um buraco sobre um morro e ficar escondido com uma metralhadora. Certamente eu nunca seria capaz de ser feliz, de me casar, nunca poderia ter filhos. Mas que diabo, eu nem conseguia um emprego de lavador de pratos.


01:38 porque somos todos uns fodidos.

sexta-feira, outubro 20, 2006

(...)"só estamos de acordo com o mundo se estamos em desacordo conosco mesmos, o absurdo é o divino"(..)


"Invejo - mas não sei se invejo - aqueles de quem se pode escrever uma biografia, ou que podem escrever a própria. Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer. Que há-de alguém confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância."

Livro do desassosego-Fernando Pessoa

sexta-feira, setembro 29, 2006

A morte era tão chata. Isso era o pior sobre a morte. Era chata. Assim que acontecia, não se podia fazer nada. Não se podia jogar tênis com ela nem transformá-la numa caixa de bombons. Estava ali,como um pneu furado. A morte era estúpida.